• Clara Padilha

A influência da atividade física sobre o sistema imunológico

Autora: Larissa Leci



Existe relação entre a Imunoglobulina A (IgA) e o exercício físico?



A influência da atividade física sobre o comportamento do sistema imunológico tem merecido atenção no meio dos profissionais e cientistas do meio esportivo, principalmente quando se relaciona o exercício com a incidência de infecções do trato respiratório superior (ITRS ((Inflamação na garganta, congestão, coriza, febre, entre outros)), que se associa, por sua vez, à região da mucosa salivar, cuja responsabilidade principal de defesa é da imunoglobulina de classe A (IgA-s).



Alguns estudos têm demonstrado que baixa concentração de IgA-s reduz a resistência a infecções, o que representa um risco aos atletas, necessidade de ausências nos treinos e consequentemente prejuízos á competições esportivas.




O aumento na atividade do sistema nervoso simpático causa vasoconstrição de vasos sanguíneos e glândulas salivares, diminuindo o fornecimento de água para a produção de saliva. Além disso, durante a prática de exercícios prolongado é observado a liberação de norepinefrina que está associada à redução do fluxo salivar, que, por sua vez, diminui as concentrações de IgA na saliva.


A prática de esportes, de modo geral, exige mecanismos adaptativos agudos em busca de

homeostase, entre os quais o aumento de incursões respiratórias.


Em situações de atividade física alta intensidade, como nos casos dos atletas envolvidos em longos períodos de treinamento intenso, o aumento da suscetibilidade a infecções é muito maior.


Durante o exercício, os movimentos respiratórios ficam ainda mais frequentes e, por vezes, mais profundos, com o objetivo de que mais oxigênio seja captado e utilizado para produção de energia.


Esse fato, coloca o praticante de atividade física em contato maior com os poluentes do ar,

resultando em condição facilitadora para infecção.


Resultados na literatura observaram uma diminuição marcada das concentrações de IgA-s quanto mais intenso o exercício. Esses estudos relataram reduções na concentração de IgA tanto durante como após um período prolongado de treinamento intenso no ciclismo, na corrida, na natação, no triátlon e em atletas de caiaque. A redução pode ser verificada tanto durante o período de treinamento exaustivo como logo após a sessão de treino.


Libicz et al. investigaram oito triatletas durante o Iron Tour da França e coletaram, diariamente, amostras de saliva quando os atletas acordavam, antes da etapa do dia e após cada dia de competição. O fluxo salivar foi significantemente menor após cada etapa, comparada com o estado basal. A concentração de IgA-s no estado basal diminuiu ao longo de todo o evento e a taxa de secreção de IgA-s dos atletas, quando acordavam, reduziu-se em quase 52% ao longo dos dias de competição.



Por outro lado, exercícios físicos de intensidade moderada, estão relacionados com a melhora do sistema imunológico, com redução da incidência de ITRS e aumento das concentrações de IgA-s durante o período de repouso.


Segundo Matthews et al., a prática diária de exercício moderado reduz em quase 30% a probabilidade de se contrair ITRS.


Dois estudos analisaram o comportamento da IgA-s de idosos em relação ao treinamento

moderado e encontraram resultados positivos para elevação de IgA-s ao final do experimento, o que melhorou a imunidade da mucosa salivar dos sujeitos.


A produção salivar é regulada pelo sistema nervoso autônomo, composta por uma mistura de secreções das glândulas parótidas, submandibular, sublingual e de outras glândulas menores. Esse conjunto de glândulas formam o mais importante reservatório de IgA para proteção do trato respiratório superior (ITRS).


Existem hipóteses de que reduções do fluxo salivar podem também diminuir a expressão de IgA, expondo o indivíduo a riscos de ITRS. Por isso é extremamente importante o atleta se manter hidratado durante os treinos e competições.


A ingestão frequente de líquidos ao longo do exercício deixa a boca constantemente molhada, enviando sinais ao sistema nervoso para que a produção de saliva não cesse. Dessa forma, esse tipo de ação previne não somente a desidratação, como ajuda também a manter facilmente o movimento de saliva na boca, preservando o fluxo salivar e, logo, a concentração de IgA. Além disso, mantém as funções protetores da saliva na cavidade bucal ajudando a prevenir a cárie e desmineralização ácida do esmalte (assunto sobre o qual podemos falar com mais detalhes em outro momento).



Bishop et al. analisaram 15 atletas durante duas horas de ciclismo e confirmaram maior taxa de secreção salivar quando foram ingeridos líquidos durante o exercício, comparada ao grupo que não realizou ingestão de líquidos. Esses resultados sugerem a necessidade de estabelecer uma conduta contínua de hidratação ao longo do exercício, tendo em vista uma resposta aprimorada na expressão de IgA-s.


Garantir um bom nível de secreção salivar, mesmo durante o exercício, é essencial para impedir reduções consideravéis nos níveis de IgA-s, assim reduzir a propensão de ITRS.


O controle prático e não invasivo da concentração salivar de IgA vem sendo apontado como um indicador importante do estado imunológico da mucosa dos atletas, ajudando treinadores e comissão técnica na elaboração de uma periodização de treinamento melhorado em relação à proteção imune.


Implicações referentes ao nível de condicionamento, fatores nutricionais, estresse psicológico, entre outros, emergem como potenciais modificadores da resistência imune da mucosa salivar relacionada com o exercício e também devem merecer destaque de investigação.


Por fim, não há dúvidas de que o exercício físico exerce influência sobre o comportamento do sistema imunológico, especialmente sobre a IgA-s, e que o controle dessa variável em atletas se torna extremamente relevante e viável, principalmente por se tratar de método

prático e não invasivo.


A prática regular de exercício físico pode ser benéfica para a saúde, porém, parâmetros como volume e intensidade devem ser observados em sua prescrição para que dele se obtenha melhores resultados. De uma maneira geral, o exercício de intensidade moderada promove proteção contra infecções. Em contrapartida, atividades de alta intensidade podem resultar no aumento da susceptibilidade à infecções.


Importante lembrar: Quando se analisam IgA-s e ITRS, deve-se também atentar para o cuidado de não atribuir à IgA-s toda a responsabilidade de proteção do trato respiratório superior, uma vez que o mecanismo de defesa não age de forma segmentada. A resposta imune celular também é importante e complementa a resposta imune humoral. A prevalência de uma ou outra resposta durante o exercício vai depender grandemente do tipo de citocina expressa pelo linfócito Th ativado.


Boa semana, pessoal!



Referências:


Silva RPS; Natali AJ; Paula SO; Locatelli J; Marins JCB. Imunoglobulina A salivar (IgA-s) e exercício: relevância do controle em atletas e implicações metodológicas. Rev Bras Med Esporte vol.15 no.6 Niterói Nov./Dec. 2009


Francis JL, Gleeson M, Pyne DB, Callister R, Clancy RL. Variation of salivary immunoglobulins in exercising and sedentary populations. Med Sci Sports Exerc. 2005;37:571-8.


Shimizu K, Kimura F, Akimoto T, Akama T, Otsuki T, Nishijima T, et al. Effects of exercise, age and gender on salivary secretory immunoglobulin A in elderly individuals. Exerc Immunol Rev. 2007;13:55-66


Akimoto T, Kumai Y, Akama T, Hayashi E, Murakami H, Soma R, et al. Effects of 12 months

of exercise training on salivary secretory IgA levels in elderly subjects. Br J Sports Med. 2003;37:76-9.


Nehlsen-Cannarella SL, Nieman DC, Balk-Lamberton AJ, Markoff PA, Chritton DB, Gusewitch G, et al. The effects of moderate exercise training on immune response. Med Sci Sports Exerc. 1991;23:64-70.


Libicz S, Mercier B, Bigou N, Le Gallais D, Castex F. Salivary IgA response of triathletes

participating in the French Iron Tour. Int J Sports Med. 2006;27:389-94.


Matthews CE, Ockene IS, Freedson PS, Rosal MC, Merriam PA, Hebert JR. Moderate to vigorous physical activity and risk of upper-respiratory tract infection. Med Sci Sports Exerc.

2002;34:1242-8.

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