• Clara Padilha

Muito além do Gatorade: fatores modificadores

Atualizado: Set 20

Autor: Vinicius Baldissera Cerqueira Leite

Cirurgião-dentista - UFSC

Membro do programa de Odontologia do Esporte PODEum - UFSC

Esta postagem faz parte da série “Muito Além do Gatorade”, a qual discute alguns pontos sobre a erosão dental e sua relação com esporte. Se você ainda não leu a primeira parte, aqui está o link.


Por mais que os diversos fatores relacionados à ocorrência desse tipo de desgaste atuem de forma conjunta, é necessária sua sedimentação para que o assunto seja compreendido em sua totalidade. Dessa forma, os demais posts abordarão aspectos relacionados aos fatores de origem extrínseca, intrínseca e “modificadores”.


Os fatores “modificadores” não são configurados como fonte ácida ou condição para que a exposição ocorra, como, por exemplo, o refluxo gastresofágico, por isso não se encaixam nos grupos intrínsecos ou extrínsecos. Na verdade, são eventos que alteram a exposição do meio bucal às substâncias ácidas, que são capazes de potencializar ou não o desgaste da superfície dental.


A função protetora da saliva na neutralização de ácidos é essencial.


Durante a atividade física ocorre ativação do sistema nervoso simpático (SNA), o qual promove a sudorese e vasoconstrição, inclusive nos vasos que permeiam as glândulas salivares, assim, há diminuição da produção salivar pela “diminuição” do aporte sanguíneo e desidratação. Assim, o fluxo e pH salivares são reduzidos e, consequentemente, a capacidade de neutralizar ácidos é comprometida.


Fonte: LEITE et al., 2019; FRESE et al., 2015; HARA; ZERO, 2012; LOKE et al., 2016; MULIC et al., 2012; WALSH et al., 2004.


Associada à hipossalivação, a respiração bucal pode, também, comprometer o clearance salivar, uma vez que ocorre a evaporação da porção aquosa da saliva, fator que contribui para o baixo volume deste fluído.


Ainda sobre a respiração bucal, é comum que atletas apresentem quadros de rinite alérgica, uma vez que há a possibilidade de treinarem ao ar livre em ambientes urbanizados e ficarem expostos aos poluentes e pólen das plantas, bem como nadadores podem ter contato com a clorina, subproduto formado do tratamento da água. Devido a constipação nasal provocada pela alergia, possivelmente, o atleta praticará o esporte realizando respiração pela via oral.


E é neste cenário, em que há desidratação e hipossalivação, muitas vezes associada também a respiração bucal, que o atleta acaba consumindo bebidas ou alimentos ácidos.


Além de fatores relacionados diretamente com a cavidade oral, a postura requerida por alguns esportes pode influenciar na ocorrência de episódios de refluxo gastroesofágico transitório ou não, o qual é um fator de origem intrínseca. Por exemplo, durante a corrida ocorrem movimentos verticais, compressão do abdômen e aumento da pressão esofágica e gástrica, dessa forma, há maior tendência de quadros de regurgitação.


Por fim, para o diagnóstico e manejo clínico da erosão dental em atletas, além de detectar os agentes etiológicos presentes, é necessário entender em que condições esta exposição ocorre.

Referências:


LEITE, V.B.C.; GONDO, R.; PADILHA, A.C.L. A prevalência de erosão dental em atletas de esportes de resistência. 2019. 72f. Trabalho de Conclusão de Curso. Departamento de Odontologia, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019.


FRESE, C.; FRESE, F.; KUHLMANN, S.; SAURE, D.; RELJIC, D.; STAEHE, H. J.; WOLFF, D. Effect of endurance training on dental erosion, caries, and saliva. Scandinavian Journal of Medicine and Science in Sports, v. 25, n. 3, p. e319–e326, 2015.


HARA, A. T.; ZERO, D. T. The Potential of Saliva in Protecting against Dental Erosion. Erosive Tooth Wear: From Diagnosis to Therapy, v. 25, p. 197–205, 2012


LOKE, C.; LEE, J.; SANDER, S.; MEI, L.; FARELLA, M. Factors affecting intra-oral pH - a review. Journal of Oral Rehabilitation, v. 43, n. 10, p. 778–785, out. 2016.


MULIC, A.; TVEIT, A. B.; SONGE, D.; SIVERTSEN, H.; SKAARE, A. B. Dental erosive wear and salivary flow rate in physically active young adults. BMC Oral Health, v. 12, n. 1, p. 8, 2012.


PINNA B. R.; KOSUGI E. M. Fisiologia nasal no esporte. In: Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial; LESSA MM, PINNA FR, ABRAHÃO M,


CALDAS NETO SS, ORGANIZADORES. PRO-ORL Programa de Atualização em Otorrinolaringologia: Ciclo 10. Porto Alegre: Artmed Panamericana; 2016. p. 111-33. (Sistema de Educação Continuada a Distância, v. 2).


DAWES, C. How Much Saliva Is Enough for Avoidance of Xerostomia? Caries Research, v. 2, p. 236–240, 2004.


CARLSON, D. A.; HIRANO, I. Editorial: Reflux while Running: Something to Belch about. American Journal of Gastroenterology, v. 111, n. 7, p. 947–948, 2016.

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