• Clara Padilha

Muito além do Gatorade

Autor: Vinícius Baldissera Cerqueira Leite

Cirurgião-dentista - UFSC

Membro do programa de Odontologia do Esporte PODEum - UFSC


Hoje, é comum encontrarmos pacientes que nunca experienciaram o processo de cárie ou, ainda, que não tenham sofrido perdas dentárias de inúmeros elementos.


Nesse novo contexto, os dentes permanecem mais tempo em boca e, inevitavelmente, expostos por um longo período aos desafios mecânicos e químicos presentes no dia a dia de cada indivíduo.


O processo de desgaste dental é um fenômeno que acompanha o envelhecimento, porém em alguns casos, a exposição a determinados agentes é tamanha, que deixa de ser fisiológica para tornar-se um processo patológico.


Nesta série de artigos, o enfoque será dado à erosão dental, é importante levar em conta que, na maior parte dos casos em que este processo está instalado, há outra forma de desgaste presente, seja atrição e/ou abrasão.

A erosão ou biocorrosão dental é um processo químico, crônico, irreversível e multifatorial caracterizado pela perda de tecidos duros dentais por ação de ácidos, quelantes e enzimas, em meio insaturado dos íons presentes na hidroxiapatita e sem a presença de bactérias. Os agentes promotores deste tipo de desgaste podem ser de origem extrínseca, como a alimentação, ou intrínseca, como o suco gástrico.


“Ok, tudo bem.



Mas, qual é a relação com o esporte?”


Já se sabe que atletas tem prevalência elevada de doenças bucais, como cárie e doença periodontal. O mesmo vale para a erosão dental. Os fatores relacionados a ocorrência dessa condição neste público não diferem da população em geral.


O problema é a interação e simultaneidade destes fatores.


Quando surge o assunto “erosão dental em atletas”, a primeira coisa que vem à mente de muitas pessoas é: “BEBIDA ISOTÔNICA”. O que não é ruim, pelo menos os profissionais estão reconhecendo o problema, mesmo que ainda há muito a ser investigado. Porém há outros fatores, em alguns casos até mais importantes, a serem investigados.


Para facilitar o entendimento, torna-se mais didático separar os agentes etiológicos com base na sua origem: extrínseca e intrínseca. No entanto, principalmente, quando se fala em atletas, um terceiro grupo precisa ser adicionado, os fatores modificadores, os quais acabam por alterar a exposição dos dentes aos agentes erosivos.


O entendimento dos fatores envolvidos na exacerbação da erosão dental em atletas deve ser feito de forma global, de modo que o maior causador não é um agente específico, mas o estilo de vida que dele é requerido, o qual envolve vários desses fatores.


Ou seja, não é o isotônico, isoladamente, tomado durante uma prova de triatlo que causará erosão severa nos dentes, mas sim, o estilo de vida do atleta como um todo, o qual pode incluir alimentação ácida frequente, episódios de refluxo gastroesofágico transitório, juntamente com hipossalivação causada nos treinos, que podem estar acompanhados de alguma bebida ou comida ácida.


O primeiro passo, por fim, é entender que o esporte em si não é causador da erosão dental, mas sim, o estilo de vida que este requer de seus praticantes, dentro e fora do circuito, treinos e competições.


Referências:

  • LEITE, V.B.C.; GONDO, R.; PADILHA, A.C.L. A prevalência de erosão dental em atletas de esportes de resistência. 2019. 72f. Trabalho de Conclusão de Curso. Departamento de Odontologia, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019.


  • LUSSI, A. Erosive Tooth Wear – A Multifactorial Condition of Growing Concern and Increasing Knowledge. Dental Erosion, v. 25, p. 1–8, 2006.

  • LUSSI, A.; JAEGGI, T. Occupation and Sports. Dental Erosion, v. 20, p. 106–111, 2006b


  • NEEDLEMAN, I. et al. Oral health and impact on performance of athletes participating in the London 2012 Olympic Games : a cross-sectional study. British Journal of Sports Medicine, v. 47, n. 16, p. 1054–1058, 2013.

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