• Clara Padilha

Uso de ESTIMULANTES no esporte e suas consequências à saúde bucal

Autora: Larissa Leci

Mestranda em Odontologia- com foco em odontologia do esporte - Unicsul

Membro do Saliva-lab


Vários esportistas tentam se sobressair com o uso de drogas ou fármacos que melhoras suas habilidades e que, quando detectados em testes, resultam em sua desclassificação, uma dessas substâncias são os ESTIMULANTES.


Os estimulantes são um grupo de drogas com características psicoativas que estimulam o sistema nervoso central, aumentam o estado de alerta e a concentração e também são capazes de elevar a pressão sanguínea e o ritmo cardíaco. São utilizados para melhorar o tempo, melhorar a memória, aumentar a energia, desencadear relaxamento, confiança e melhorar a energia quando cansado.

Os maiores exemplos de estimulantes disseminados no esporte são as Anfetaminas, a Cocaína, a Metanfetamina, Efedrina e a Cafeína. Estas substâncias são usadas para conseguir os mesmos efeitos da ADRENALINA tal como o aumento da excitação. Além disso podem ainda aumentar a capacidade de tolerância ao esforço físico e diminuir o limiar de dor.



O uso dessa substância pode ser extremamente perigoso para o indivíduo como um todo e para a sua saúde bucal. Os hábitos de consumo, juntamente com o descuido com a higiene e alimentação, põe os consumidores destas substâncias num nível de risco muito elevado no que diz respeito a problemas de saúde oral.

Um dos estimulantes proibidos pela WADA, são as metanfetaminas, que são compostos ácidos e têm a capacidade de aumentar a atividade motora, provocando bruxismo e consequentemente causando um maior desgaste dentário. Estes compostos ácidos acumulam-se na cavidade oral e juntamente com a capacidade tampão da saliva diminuída provocam lesões na língua e inflamação gengival.


As metanfetaminas (e a maioria dos estimulantes) possuem como principal efeito colateral a vasoconstrição, afetando principalmente o tecido periodontal, pois não permite que o periodonto e os dentes tenham o aporte sanguíneo necessário para permanecerem saudáveis, levando à perda óssea. Além disso, a diminuição do fluxo sanguíneo faz que com que ocorra a diminuição da capacidade imunitária provocando uma menor resistência a infeções, o que influência a progressão da doença periodontal.

Vários estudos ligam o consumo de metanfetaminas com problemas na cavidade bucal. Foi criado um termo para as lesões causadas por esta substância “Meth Mouth” caracterizada por lesões de cáries extensas, que se encontram em todos ou quase todos os dentes nas superfícies lisas, ou nas faces proximais dos dentes anteriores. Os dentes ficam com a coloração escura, podendo envolver todo o dente, embora inicialmente se encontre mais na zona cervical. Visualmente assemelham-se a cáries induzidas por radiação, porém apresentem um padrão de progressão mais lento. Pensa-se que estes tipos de cáries são causados pelos efeitos diretos de metanfetamina, somando ao aumento da ingestão de alimentos açucarados e à xerostomia. Um estudo realizado por Tipton em 2010, relatou que as metanfetaminas podem ter influência na inflamação e degradação gengival através do aumento da produção de IL-1β na presença de LPS produzidos pelas bactérias. Foram estudados os efeitos da produção de LPS e a sua influência na produção de IL-1β pelos monócitos e macrófagos. A Fusobacterium nucleatum encontra-se presente na placa subgengival na periodontite, os LPS produzidos por esta bactéria vão ativar os monócitos e macrófagos estimulando-os a produzir citoquinas como a IL-1β.


Esta citoquina é responsável pela reabsorção óssea e está relacionada com a severidade de doenças inflamatórias, como a periodontite porque estimula a secreção de MMP, que vão ter um papel fundamental na degradação dos tecidos moles e duros a nível periodontal.

Além dos problemas periodontais a xerostomia ou sensação de boca seca, foi relatada pela maioria dos usuários de todas as variações de estimulantes. A secreção salivar é controlada pelo sistema nervoso autónomo através da via simpática e parassimpática.

Os estimulantes possuem a capacidade de aumentar a atividade motora, provocando bruxismo e causando assim um maior desgaste dentário. O bruxismo acontece frequentemente nos consumidores crónicos devido à intensa energia e atividade neuromuscular, durante a fase aguda de consumo. Estes atletas apresentam um estado de ansiedade e nervosismo (devido a treinos exaustivos e ansiedades pré competições) que fazem com que estejam constantemente a apertar e a ranger os dentes e ocasionando fraturas dentárias.

O fato de apresentarem pré disposição ao bruxismo contribui para uma maior e mais rápida destruição dos dentes já fragilizados. O bruxismo e o trismo muscular também podem acarretar consequências negativas a nível da articulação temporomandibular.

A cocaína, outro estimulante proibido pela WADA, possui ação vasoconstritora, pode provocar, ao ser aspirada, perfurações no septo nasal e palato duro, caso ocorra seu uso prolongado. Na cavidade oral, pode acarretar: xerostomia; ressecamento da mucosa; descamação gengival; maior formação de cálculo; periodontite; desmineralização dentária cervical; cárie rampante com coloração escura e sem sensibilidade; perdas dentárias; escaras na região da língua; bruxismo e candidose.

Encontram-se taxas mais elevadas de cárie dentária e problemas periodontais, como GUN (Ulceração dolorosa na crista da papila interdentária Tecido cinzento necrótico de descamação visível na superfície das ulceras, pode causar perda da papila interdentária, hemorragia gengival espontânea, halitose) nos consumidores de cocaína.


Como a inalação da droga é muito desconfortável e pode provocar lesões nas mucosas nasais, muitas vezes os consumidores optam por esfregá-la na gengiva.

Os efeitos destes dois métodos são iguais, pois, as mucosas são semelhantes e ambas têm uma alta vascularização. Os efeitos a nível periodontal provocados por este tipo de droga estão intimamente relacionados com a sua capacidade de alterar a resposta imunológica inata e adaptativa e conseguir influenciar a progressão e a severidade da doença periodontal.

A Efedrina assim como os outros estimulantes, podem causar xerostomia, tornando o atleta mais susceptível a lesões cariosas. Podem também ocasionar episódios de vômitos, que possuem uma relação indireta com a saúde bucal, os ácidos provenientes do estômago chegam as superfícies dos dentes, podendo causar erosões dentárias. Não encontrei nenhum estudo que avalie diretamente o uso de efedrina com as alterações bucais, o que mostra a necessidade de se estudar os efeitos dos estimulantes na cavidade bucal.


Os efeitos colaterais citados nesse artigo, foram encontrados na Bula original da substância, registrada pela anvisa.

As anfetaminas e seus derivados, em 2016 foi considerada a quarta droga, com o maior uso no mundo. Esse estimulante também possui efeitos nocivos sobre a saúde bucal, tais como, xerostomia, cáries exuberantes (“meth mouth”), desgaste dentário excessivo, perda dentária, presença de cálculos e diminuição de pH bucal.

Muitos fazem o uso concomitante com o álcool, o que pode potencializar os efeitos danosos das anfetaminas sobre a saúde bucal dos pacientes avaliados.

Existem outros estimulantes que não são considerados substâncias proibidas, porém, estão incluídas no Programa de Monitoramento de 2020 (WADA 2020).

Como a cafeína e a nicotina:

A cafeína também pode aumentar a chances de se ter bruxismo, ela possui uma meia-vida de seis horas depois de consumida. É um estimulante que pode promover a atividade muscular e causar períodos de vigília frequentes durante a noite.


A maioria das bebidas energéticas possuem como ingrediente principal a cafeína, que além de dar energia, alivia o cansaço muscular. Porém em um estudo in vitro, mostrou que há ação erosiva sobre o esmalte dentário, resultante da frequente ação de contato dos dentes com bebidas energéticas.

Foram experimentados 10 tipos de bebidas energéticas e encontraram potencial erosivo evidente em todas elas, devido ao baixo pH. Portanto, se pode inferir que atletas que ingerem líquidos energéticos com a presença de cafeína em alta frequência podem sofrer erosão do esmalte superficial em seus dentes.

A nicotina que também é classificada com estimulante do CNC, age diretamente, diminuindo a resposta imunológica dos usuários, os deixando propensos a doenças sistêmicas e bucais. Entre as principais manifestações orais relacionadas ao uso da nicotina está a gengivite, a periodontite com formação de bolsas periodontais, cáries, perdas dentárias e halitose. Somado a isso está o grande risco de desenvolvimento de lesões com potencial maligno, ou seja, lesões que podem predispor ao câncer bucal, como a leucoplasia, que é a lesão que apresenta o maior potencial de transformação maligna, o leucoedema, que não é necessariamente uma lesão, mas que se apresenta de forma mais acentuada em fumantes do que em não fumantes e pode ser confundido com a leucoplasia. Todas as manifestações causadas pela nicotina possuem um risco aumentado quando existe uma combinação com o consumo excessivo de álcool, principalmente o câncer bucal.

Listei nesse artigo, os estimulantes que foram classificados como os mais utilizados no esporte, existem outros que são de uso proibido em competições (WADA 2020).

Deixo aqui o site para consulta.

Lembrando que a maioria dos estimulantes possuem os mesmos efeitos colaterais na cavidade bucal, sendo mais prevalente a xerostomia (e suas consequências), bruxismo e alterações periodontais.


Devemos sempre levar conhecimento cientifico aplicado a prática clínica para os nossos atletas, sabendo diagnosticar, orientar, tratar e reabilitar quando necessário.

Referências

 Amaral AS, MI Guimarães . DROGAS ILÍCITAS: A SUA INFLUÊNCIA NA SAÚDE ORAL E AS SUAS IMPLICAÇÕES A NÍVEL PERIODONTAL. Trabalho submetido por Andreia Filipa Colaço e Silva para a obtenção do grau de Mestre em Medicina Dentária junho de 2015.

 Amaral, A. S., e Guimarães, M. I. (2012). Manifestações orais do uso de metanfetaminas. Revista Portuguesa de Estomatologia, Medicina Dentaria e Cirurgia Maxilofacial, 53(3), 175–180. doi:10.1016/j.rpemd.2012.05.005

 Tipton, D. A., Legan, Z. T., e Dabbous, M. K. (2010). Methamphetamine cytotoxicity and effect on LPS-stimulated IL-1β production by human monocytes.Toxicology in Vitro, 24(3), 921–927. doi: 10.1016/j.tiv.2009.11.015

 Bula Efedrin (sulfato de efedrina) - Cristália Prod. Quím. Farm. Ltda

 Pires, AB. Reações adversas na cavida-de oral em decorrência do uso demedicamentos.SALUSVITA,Bauru, v. 36, n. 1, p. 157-185, 2017

 COLODEL EV, SILVA MD, ZIELAK, João César, ZAITTER, Wellington, MICHEL-CROSATO, Edgard, PIZZATTO, Eduardo, Alterações bucais presentes em dependentes químicos. RSBO Revista Sul-Brasileira e Odontologia [Internet]. 2009;6(1):44-48


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