• Clara Padilha

Zonas de resistência e fragilidade da face

Este artigo é material de apoio para a disciplina de Odontologia do Esporte da Faculdade de Odontologia da Uniavan.


A face é a região mais exposta do crânio e, portanto, mais sujeita a traumatismos provocados por impactos diretos.


Porém, a face também apresenta zonas de proteção a estes impactos através de pilares ("vigas ósseas") e regiões de maior espessura óssea, chamadas de zonas de resistência, cuja função é proteger órgãos importantes, como o olhos e estruturas neromusculares e também órgãos vitais como o cérebro.





A arquitetura dos ossos está adaptada as exigências mecânicas de tração e pressão.


Quanto maior a exigência mecânica, mais desenvolvimento ósseo temos. Por isso que as regiões das extremidades ósseas são maiores e mais irregulares, devido às inserções musculares que estão presentes por ali, que "forçam" o osso a se desenvolver para responder à demanda mecânica exigida.


Regiões mais sujeitas às forças mecânica respondem produzindo >>>> região cortical mais espessa ou região esponjosa mais densa.


A força mastigatória é a que mais induz forças no esqueleto facial. Por isso percebemos trajetórias na mandíbula, caracterizando zonas de resistência, que são induzidas pelos músculos da mastigação ou pela pressão exercida pelos dentes no alvéolo durante essa função.


Para relembrar quais são os 4 músculos da mastigação e sua origem e inserção:


Músculos: Masseter, Temporal, Pterigoideo medial e Pterigoideo Lateral


A partir do movimento de elevação da mandíbula, abaixamento controlado e latero-protrusão que esses 4 músculos promovem durante a mastigação, trajetórias ósseas vão sendo formadas nos ossos que se movimentam:


Trajetória Marginal ou Basilar: Ocupa a borda inferior da mandíbula desde a região mentual até a borda posterior do ramo mandibular e o côndilo;

Anula principalmente as forças de compressão – justifica espessura.

Trajetória mentual: Região muito reforçada por corticais espessas;

Trabeculado ósseo mais denso da mandíbula: região de anulação de forças de torção causadas principalmente pelos músculos pterigóideos mediais.


Trajetória temporal: Espessamento da borda anterior do ramo mandibular causada por tração do músculo temporal. Trajeto descendente a partir do processo coronóide até a linha milo-hioidea e linha oblíqua.


Na região fixa da face, temos pilares e arcos de união que representam nossas zonas de resistência:


Começamos identificando o PILAR CANINO e o PILAR ZIGOMÁTICO:



O pilar canino inicia no alvéolo do canino e termina na extremidade medial da borda supra-orbital. Observe a sua trajetória lateral à cavidade nasal.


O pilar zigomático inicia no alvéolo do 1º molar superior e segue até o osso frontal, passando pela lateral da órbita. Possui uma "ramificação" sobre os ossos zigoma e temporal, conectando os dois ossos (arco zigomático).


O pilar pterigóideo inicia-se no alvéolo do 3º molar. Passa para o processo pterigóide do esfenóide pelo processo piramidal do palatino.


Identificando os pilares da face, podemos uni-los, criando os arcos de união:



Na parte palatina também:



(OBS.: Identifique na sua apostila essas regiões)

Agora, para estudar as zonas de fragilidade precisamos dividir a face em três terços (vou usar uma foto minha, para que vocês não fiquem com muita saudade):


1)

2)

3)


Destes três terços, o que consideramos o mais frágil é o terço médio:


Sendo o terceiro tipo de fratura mais comum no esporte justamente a fratura nasal (COTO, 2010).


Na maxila, a proximidade da raiz (ou raízes) é algo a ser considerado uma vez que à medida que os dentes se distanciam da linha média, se tornam cada vez mais próximos de regiões como o seio paranasal, que por ser “oca” não contribui para resistência.


As zonas de fragilidade e fratura na face foram classificadas por Le Fort em três categorias importantes:



- Le Fort I: resulta de força aplicada horizontalmente na maxila, que a separa das lâminas pterigóides e das estruturas nasal e zigomática.



- Le Fort II:  forças aplicadas numa direção mais superior causam separação da maxila e complexo nasal aderido, do complexo formado pela órbita e estrutura zigomática.



- Le Fort III: ocorre quando a maxila é submetida a forças horizontais num nível suficientemente alto para separar o complexo naso-orbito-etmoidal, os zigomas e a maxila da base do crânio, o que resulta na chamada disjunção crânio facial.



Na mandíbula, regiões como colo de mandíbula, ângulo de mandíbula, forame mentual, e processo coronóide são consideradas frágeis e mais propensas a fraturas (MILORO, 2004).


Veja como as linhas de fratura mais comuns na mandíbula são perpendiculares às zonas de resistência que esse osso apresenta. Nos exames complementares podemos perceber essas fraturas dessa forma:







Quando consideramos fraturas de côndilo podemos procurar por:

1- Evidência intra ou extra-oral de trauma na região sinfisial.

2- Desconforto localizado ou edema na região preauricular.

3- Desvio do queixo à abertura da boca para o lado da fratura.

4- Mordida aberta contralateral à fratura.

5- Sangue ou inflamação dos tecidos do conduto auditivo externo.

6- Dor ou defeito de degrau à palpação local.

7- Movimento não palpável na área condilar durante a abertura da boca.


As fraturas mandibulares são descritas como favoráveis quando a musculatura tende a trazer um fragmento contra o outro a reduzindo; e são definidas como desfavoráveis quando os fragmentos tendem a ser separados pela ação muscular.


Quase todas as fraturas do ângulo são horizontalmente desfavoráveis devido a ação dos músculos masseter, pterigóideo medial e temporal, levando a uma tração com deslocamento do segmento proximal à fratura. As fraturas verticalmente desfavoráveis frequentemente envolvem o corpo; sínfise e parasínfise; o seu deslocamento depende da ação do músculo milohioideo.


E agora, no caso de uma fratura na face? Em qualquer uma dessas regiões... qual seria a nossa conduta?



Referências


Coto, Neide; Meira, Josete; Dias, R. Fraturas nasais em esportes: sua ocorrência e importância, RSBO, 7(3), 2010.


Livro: Namba, E; Padilha, C. Odontologia do Esporte, um novo caminho, uma nova especialidade: Ed. Ponto, Florianópolis, 2015 (Capítulo 10)


Livro: Dias, R; Coto, N. Odontologia do Esporte: uma abordagem multidisciplinar: Ed. Manole, São Paulo, 2016

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